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Torquato Neto

PALAVRA DO POETA - LINGUA SOLTA 

Os faraós construíram aquelas pirâmides caríssimas e depois se enterravam lá debaixo, mumificados. É isso: tem muito faraó pintando por aí. Cada superprodução... Cada pretensão... Cada faraó... 

 

Ocupar espaço: espantar a caretice: tomar o lugar: manter o arco: os pés no chão: um dia depois do outro. 

 

Eu, pessoalmente, acredito em vampiros. O beijo frio, os dentes quentes, um gosto de mel. 

 

O dia seguinte de repente antes do sim. Não faço a menor questão de fazer sentido. Basta o meu amor redivivo.

 

Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem. Nem que seja o boi. 

 

Citação: leve um boi e um homem ao tal matadouro. O que berrar menos merece morrer. É o boi. 

 

Escute antes que todos se calem. Não preste a mínima atenção ao que eu diga. Mas por favor, não me esqueça.  

 

Meu pobre coração não vale nada. Anda perdido, não tem solução. Mas se você quiser ser minha namorada, vamos tentar, não é? Não custa nada. 

 

Primeiro passo é tomar conta do espaço. Tem espaço a beça e só você sabe o que fazer do seu. Antes, ocupe. Depois se vire. Não se esqueça de que você está cercado, olhe em volta e dê um rolê. Cuidado com as imitações.

 

Alô, idiotas. Deus vos salve essa casa santa; refresco: amém. Alô, idiotas: o Rei Roberto Brás Martins dos Guimarães Carlos, o Rei Roberto Carlos para os íntimos, acabou definitivamente a seleção das músicas gravadas para seu próximo elepê.

 

Os poetazinhos que proliferam nesta hora de kyries e medos mixurucas não passam de freelancers do funcionalismo público; poetas, pintam muito poucos.

 

La noche em que me quieras será de plenilúnio: não digo: adeus batucada: não digo: pra dizer adeus: não digo: nunca. Na União Soviética, eu soube, os hospícios vivem cheios de nós.

 

Sirva um samba de Noel, uma ciranda/ Uma toada do Gonzaga (o pai), aquele samba/ aquela exaltação de um iê-iê-iê/ romântico suavespuma, bem macio/ um filme de mocinho e de bandido/ uma peça qualquer com muito drama:/ encha o caco, amizade, tudo é porta/ e vá entrando à vontade, a casa é sua. 

 

A virtude é a mãe do vício/ conforme se sabe/ acabe logo comigo/ ou se acabe.

 

Ponha a boca no mundo: assim não é possível. /Ou então feche o riso e aperte os dentes /de uma vez. Ponha a boca no mundo: somente assim, é possível, /louca, qualquer coisa louca /de uma vez.

 

Garota você é uma gostosura, foi proibida pela censura. A barca não pode parar, lembre-se disso. Escale as dunas, se esparrame na areia, enfie a cara na água fria ou quente, se arrebente. Brinque todos os carnavais agora. Quem não chora não mama, segure, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta.

 

 

Não é o meu país/ É uma sombra que pende/ Concreta / Do meu nariz / Em linha reta

Não é minha cidade/ É um sistema que invento/ Me transforma/ E que acrescento

À minha idade/ Nem é o nosso amor/ É a memória que suja/ A história

Que enferruja o que passou

 

 

Minha namorada tem segredos/ Tem nos olhos mil brinquedos

De magoar o meu amor/ Minha namorada muito amada/ Não entende quase nada

Nunca vem de madrugada/ Procurar por onde estou

 

 

Um bom menino perdeu-se um dia/ Entre a cozinha e o corredor

O pai deu ordem a toda a família/ Que o procurassem, ninguém achou

A mãe deu ordem a toda a polícia / Que o perseguissem, ninguém achou.

Mamãe, mamãe, não chore/ A vida é assim mesmo

Eu fui embora / Mamãe, mamãe, não chore

Eu nunca mais vou voltar por aí/ Mamãe, mamãe, não chore

A vida é assim mesmo/ Eu quero mesmo

É isso aqui.

 

 

Desde que saí de casa/ Trouxe a viagem da volta

Gravada na minha mão/ Enterrada no umbigo

Dentro e fora assim comigo/ Minha própria condução

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Há urubus no telhado/ E a carne seca é servida/ Escorpião encravada

Na sua própria ferida/ Não escapa, só escapo/ Pela porta da saída

 

Três da madrugada,quase nada/ Na cidade abandonada

Nessa rua que não tem mais fim/ Três da madrugada tudo e nada/ A cidade abandonada

E essa rua não tem mais/ Nada de mim...

Nada/ Noite alta, madrugada,/ Na cidade que me guarda

E esta cidade me mata/ De saudade/ É sempre assim...

 

Adeus/ Vou pra não voltar

E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho

Vou fazer a louvação/ Do que deve ser louvado

Meu povo, preste atenção/ Repare se estou errado.

Louvando o que bem merece,/ Deixo o que é ruim de lado.

 

Louvo quem canta e não canta/ Porque não sabe cantar

Mas que cantará na certa/ Quando enfim se apresentar

O dia certo e preciso/ De toda gente cantar.

 

Ê, São João, ê, Pacatuba/ Ê, rua do Barrocão

Rio Parnaíba passando/ Separando a minha rua

Das outras do Maranhão/ De longe pensando nela

Meu coração de menino/ Bate forte como um sino/ Que anuncia a procissão.

 - De longe pensando nela, meu coração de menino, bate forte como um sino que na anuncia a procissão...

O jornal de manhã chega cedo/ Mas não traz o que eu quero saber

As notícias que leio conheço/ Já sabia antes mesmo de ler

 

 

Um poeta desfolha a bandeira/ E a manhã tropical se inicia

Resplandente, cadente, fagueira/ Num calor, girassol com alegria,

Na geléia geral brasileira/ Que o Jornal do Brasil anuncia

(penso numa locação alegre, tropicalista: mercado com banca de bananas, melancias cortadas ao fundo, abacaxis, mangas – cores! - ou numa rua do centro, bem movimentada, transeuntes passando inclusive atravessando na frente da câmera, algo assim)

 

 

É a mesma dança na sala,/ No Canecão, na tv,

E quem não dança não fala,/ Assiste a tudo e se cala,

Não vê no meio da sala/ As relíquias do Brasil:

Doce mulata malvada/ Um elepê de Sinatra.

Maracujá, mês de abril,/ Santo barroco baiano,

Superpoder de paisano,/ Formiplac e céu de anil,

Três destaques da Portela/ Carne-seca na janela

Alguém que chora por mim/ Um carnaval de verdade

Hospitaleira amizade/ Brutalidade e jardim!

 

Sabe, amor, eu te amo tanto, tanto/ Que esta minha vida

Sem você/ Seria para sempre triste

E eu nem sei se existe/ Vida assim que alguém possa viver

Meu bem eu te amo tanto/ Que vou te dizer

Daria minha vida/ Pra não te perder

 

O destino do poeta é coisa dele/ Preste atenção que eu te amo é nele

Nele meu amor é muito grande/ Vive crescendo enquanto a gente aprende

Que o destino do poeta é grande

 

 

Você me chama/ Eu quero ir pro cinema

Você reclama/ Meu coração não contenta

Você me ama/ Mas de repente

A madrugada mudou/ E certamente aquele trem já passou.

 

Era um pacato cidadão de roupa clara/ E todo dia passava e me dizia

Que o mundo estava andando muito mal/ Eu perguntava porque, eu perguntava

Seu Exequias nunca me explicava/ Apenas repetia

Lá dentro de seu puro tropical/ Este mundo vai seguindo muito mal

Este mundo, meu filho, vai seguindo muito mal

 

 

Já que a morte está parida/ Um dia depois do outro

Numa casa enlouquecida/ Digo de novo

Quero dizer/ Agora é na hora

Agora é aqui/ E ali e você

Digo de novo/ Quero dizer

A morte não é vingança.

 

 

Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. 

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